sexta-feira, 1 de junho de 2012

Domingo dia 3, VARIETÉ CULTURAL em Santa Teresa

A Editora Cozinha Experimental estará presente com publicações e cadernos, neste domingo dia 3 de junho, a partir das 16 horas, no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, em Santa Teresa, Rio de Janeiro. O Evento irá contar com inúmeras atrações, como vocês podem confirir na programação abaixo.



:Variete Cultural:
Arte do mundo em Santa Teresa

DOMINGO 3 DE JUNHO
CELEBRAMOS UM ANO DE REALIZAÇÃO DO VARIETE CULTURAL!!!

O Variete Cultural é um encontro cultural organizado e produzido por um coletivo de artistas independentes, que procura difundir e valorizar o amplo panorama cultural atual do bairro, formado por artistas do mundo inteiro.

Abraçando as mais variadas propostas artísticas, o projeto do :Variete Cultural: propõe um espaço onde acontece o intercâmbio com elementos do circo, dança, teatro, artes plasticas, fotografia, cinema...

O :Variete Cultural: é um encontro que acontece mensalmente no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo,
é um evento gratuito, realizado sem nenhum subsídio financeiro,
o evento acontece graças ao trabalho voluntário de todos os participantes, produtores, artistas, técnicos...

Por isso, durante o evento será passado um CHAPÉU como forma de colaboração,
todo o arrecadado será utilizado para produzir as próximas edições do :Variete Cultural:

Entrada amiga e colaborativa

Programação de Domingo 3 de Junho

Exposições ao Ar Livre
16:00 - 21:30

- Fotógrafos:
Débora Bendito
Leonardo Loureiro
Solange Bouffay
Eymeraude Cordon
Marwin Reis

- Artistas plásticos:
Márcia Imbrois
Johanna Thomé De Souza
Atelier de Favela
William Anselmo
Carol Lucena
Anatacha e Chimenia Sczesny
Luiz Rocha

- Intervenção Artística - João de Albuquerque

Venda de produtos artesanais
- Artesanato Recicriarte de Thais Nunes
- Artesanato de Kheyla e Maite
- Artesanato de Clarinha Barbieri
- Editora Cozinha Experimental
- Roupas femininas de Karla Cris Belfort
- Bolsas de Cristina

Buffet Latino-Americano
- Delicias internacionales para paladares multiculturales com cardapio especial de aniversario.....

Oficinas
16:00 - 18:00
- Oficina de técnica de Malabares - swing , antisping, isolação com claves ou poi - com Danila Meloni
- Oficina de Serigrafia com Anatacha e Chimenia Sczesny
- Oficina de Artesanato com Kheyla e Maite

Musica ao vivo
17:30 - 18:00
- Duo Cuerda Floja

Intervenção de dança
18:15
- O Laboratório de artes corporais Dac UFRJ presenta um trecho da pesquisa “Por Trás dos véus”
Concepção: Ignez Calfa

Performances no Auditório:
18:30-19:30
- Presentadora: Golondrina
- Marcos Camelo
- Experimento n 73 com Lucas Castelo Branco
-¨Residência no Redemoinho¨ com Karol Schittini
-"De repente grávida" com Aline de Oliveira

Projeção de Fotos: Um Ano Do :Variete Cultural:

Intervenção de Poesias e Fogo
19:30 - 20:00
- Sheyla de Castilho e Kyvia Rodrigues em aliciamentos e alucinações.
- Camille Bastos bambole de fogo
- Improvisação colectiva de malabares de fogo.

Banda Final
20:00 - 21:30
- Coletivo Joaquim 71

sábado, 26 de maio de 2012

Me roubarei e te darei a mim




novo zine da bobo, "me roubarei e te darei a mim"- confira na íntegra :  AQUI


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Cine Clube das Artes e lançamento da Problemática do Lápis





No Cineclube das Artes, em meio a exposições de quadros e fotos, video instalações e muitos curtas metragens, a editora Cozinha Experimental esteve presente com seu estande de cadernos e publicações e com a a exposição de nossa fotógrafa oficial Michelle Ludvichak. O evento foi muito bom, com grande público perambulando pela casa e assistindo curtas metragens de produção independente. Na penúltima sessão do cineclube (que tem quatro sessões, somando mais de duas horas de filmes por apenas 10 reais, muito mais barato que a média dos cinemas da cidade) teve até estréia do curta metragem Cão que Morde, dirigido por Zélélé.

 - o quadro e a camiseta desta foto são de Felipe Fly



 A Problemática do Lápis

No estande/cantinho da Cozinha Experimental estava sendo lançada uma nova coleção de cadernos (Laís foi esperta e garantiu o seu). São cadernos diferentes do que estivemos fazendo até agora, menores e mais baratos que juntos formam uma coleção, funcionam como uma espécie de tirinha. São cinco desenhos de capa e um padrão no verso feitos pela Gala Tyke. Os cadernos foram serigrafados e costurados pela equipe do Barateza Duran em nossa oficina localizada a mais de 20 metros do solo.



Serviço:
Capa: diversas cores de capa e impressão com verso serigrafado com padrão.
Miolo e número de páginas: papel vergê bege ou verde claro 120 grs. (32 págs) e branco 120 grs. (40 págs.)
Formato: 11 cm de largura por 15 de altura
Custo: cada caderno custa 8 reais. A coleção de cinco cadernos sai por 35 reais e pode levar um brinde surpresa!
Onde encontrar: estamos todos os domingos, das 11 até as 15:30 horas, na feira de artesanato da Praça São Salvador, localizada no bairro de Laranjeira, no Rio de Janeiro. Se você não mora no Rio ou por algum motivo não pode vir até nós, nos mande um email e enviamos os cadernos pelo correio.






Mais informações sobre os cadernos e seu processo de construção está no blog dos Cadernos Experimentais.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Cine Clube das Artes

A Editora Cozinha Experimental estará presente no Cine Clube das Artes neste sábado! Quem for poderá conferir algumas novidades, como os novos cadernos da safra 2012 que ainda não está completa, além de nossas publicações e de nossos parceiros e amigos. Além disso, haverão muitas outras atrações, como filmes (claro, é um cineclube), fotografias, video-instalações, pinturas e pipoca de graça!

Confira a programação completa aqui.


terça-feira, 27 de março de 2012

Ex-libris eróticos



A Cozinha Experimental tem orgulho de anunciar a reedição do zine Ex-libris Eróticos, em parceria com a Dodo Publicações. Originalmente publicado dentro da coleção Edições Catador, o zine esgotou antes mesmo do pessoal da Dodo anunciar a coleção em seu blog!


Além da tiragem maior (são 62 cópias desta vez), nesta reedição foram feitas alguma melhorias também. São três versões de capa que você confere nas fotos ao longo deste post e tb um padrão na parte interna do papel de capa, que você confere abaixo:


Este zine foi produzido a partir de um livro português, encontrado num sebo em Curitiba. Foi publicado pela editora Fenda em 1990, com a tiragem de 750 exemplares. A recolha desses ex-libris foi feita por Phyllis e Eberhard Kronhausen.


Quem quiser sua cópia pode nos encontrar na feira da praça São Salvador, aos domingos, a partir das 11 horas da manhã, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Quem não pode ir lá, mas quer sua cópia, entre em contato por email ou comentário aqui no blog. O zine custa 3 reais.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Psicologia da Composição

1.
Saio de meu poema
como quem lava as mãos.
Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;
talvez, como a camisa
vazia, que despi.

2.
Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me invita ao verso
nítido e preciso.

Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.
Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;
como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.

3.
Neste papel
pode teu sal
virar cinza;
pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza.

(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera.)

Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.

(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)

4.
O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro; rompendo
seu branco fio, seu cimento
mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça.)

5.
Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.
Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu
também como flor)
que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido
contra o açúcar do podre.

6.
Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;
não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;
mas a forma atingida
como a ponta do novelo

que a atenção, lenta,
desenrola,
aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

7.
É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.

8.
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.

(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
caiu, fruto!
Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.)

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:
então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;
onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.

João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Novo zine da BOBOgraphics

Confira esta prazerosa publicação editada por M.Guerrix & Virginia Rodrigues: BOBOunaCASArolante

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

AS MELHORES BIBLIOTECAS DO MUNDO

>>> escritos de Barateza Duran segundo o método espasmódico dialético  <<<


Antes de tudo, o que há de mais importante em uma biblioteca é ter acesso a ela. Ou melhor, ter acesso aos objetos que fazem dela uma biblioteca, os livros (impressos em geral, na verdade). De nada adianta saber da magnitude das bibliotecas americanas, dos exemplares raros das bibliotecas francesas. Queremos livros para ler, para ver, manusear, carregar pra lá e prá e não passar nem das primeiras 10 páginas. Estamos falando de livros do cotidiano, livros banais, livros que são lidos, manuseados a exaustão, que serão reformados ou decompostos. Minha mãe me falou de um ditado suíço, onde se diz que livro bom é livro gasto, passado, destruído, pois isso nos mostra que ele foi lido e relido, diversas mãos e olhos e narizes passaram por ele.  Não estou dizendo para jogar o livro no chão e pisar em cima, nem para você não ter um mínimo de cuidado com o objeto, só estou falando que livros, ao serem manuseados, se desgastam. Isso é normal. Todo cuidado é pouco.

Ao mesmo tempo, o fetiche do livro. Livros bonitos, bem editados. Livros raros, livros achados no chão empoeirado de um sebo qualquer do mundo, que se tornou uma jóia rara em sua coleção. Livros herdados de avós, pais, amigos, frutos de relacionamentos acabados. Livros roubados, emprestados e nunca devolvidos. Livros que você não empresta nem que lhe paguem. Livros de artista. Livros únicos. Cadernos. O que há neste objeto ancestral, nesta ferramenta perfeita, que tanto nos fascina? Não vou me arriscar a dar uma resposta definitiva para uma pergunta tão perigosa, há milhares de respostas, cada um com seus gostos, seus interesses, seus fetiches (os desinteressados por livros não tem vez aqui). Pessoas que colecionam livros e nada lêem e pessoas que lêem tudo e não tem um livro na estante. Não há regras, o fato é que os livros existem, uma infinidade deles, uma avalanche, um “Niágara de livros” para citar o Joseph Mitchell. E é por isso que existem bibliotecas.

Tendo em vista essas perspectivas, talvez contraditórias, é que estamos iniciando esta coluna com uma série de textos sobre as melhores bibliotecas do mundo. De forma completamente informal, eu, Barateza Duran, irei escrever as mais subjetivas opiniões possíveis sobre o tema aqui proposto.

As Melhores Bibliotecas do Mundo #1: bibliotecas de amigos

Já faz algum tempo, estava conversando sobre livros, bibliotecas, publicações, com a Virgínia Rodrigues e ela comentou que o futuro das bibliotecas estava nos acervos de amigos. Fiquei com esta afirmação na cabeça. Não sei quanto ao futuro, mas sei que as bibliotecas de amigos são, sem sombra de dúvidas, as melhores bibliotecas que existem. São de livre acesso e tem um ambiente agradável, geralmente acompanhado de um comentário acerca da obra, de recomendações e agrados em forma de piadas, cafés, biscoitos, cigarros, um copo de cerveja, uma conversa boba e uma promessa de voltar a se ver e de devolver o livro sabe-se lá quando.

Pode-se alegar que os acervos dessas bibliotecas são modestos, mas geralmente eles vêm acompanhados da vivência de seu dono, é um reflexo. Pessoas compram livros por necessidades distintas, seja por interesse (infinitos!), por estudos (quantos temas existem?), por fetiche. Sendo um amigo seu, é provável que você compartilhe afinidades com esta pessoa e que também tenha um interesse, mesmo que moderado, pelos interesses dela. São livros selecionados, você sabe a sessão da biblioteca que está freqüentando. Se juntar as bibliotecas de todos os meus amigos, poderia organizá-las em prateleiras segundo seus nomes, pois os conhecendo, sei que livros encontrarei ali. É muito simples e bastante prático. Não há armários de pesquisa por nome e sobrenome, temas relacionados, ano de publicação. Basta uma visita, um telefonema ou um email.

Esses acervos tão cativos e próximos guardam surpresas que nenhuma outra biblioteca do mundo pode proporcionar. Você pode ser surpreendido por um amigo que lhe empresta um livro, sem que você pedisse, nem fizesse idéia de que ele o possuísse, apenas porque como amigo, te conhece , sabe de seus interesses, dos seus gostos e às vezes, sabe até sobre seus defeitos ou dificuldades e pode tentar te ajudar com uma leitura certeira. Sem dúvida um serviço exclusivo das bibliotecas de amigos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Infinínfimos XI - Revisitando Haroldo


Nunca fui muito com a cara do Haroldo de Campos, assim, como personagem. Primeiro por conta do próprio Concretismo, já que “poesia e matemática”, “poesia tecnológica”, “poesia e Arnaldo Antunes” e etcetera nunca me pareceram boas combinações.  Sou de outra geração e por isso criei vínculos afetivos mais viscerais com escritores que eu considerava mais “apaixonados”. Mas o fato é que como todo jovem aspirante a artista, acabei tendo que engolir mais tarde a farofa da minha empáfia. Porque Haroldo não foi só um velho barbudo que arrotava em sânscrito; foi um militante feroz e um construtor empedernido da identidade cultural brasileira. Num Brasil tacanho, submisso e colonizado, a figura de Haroldo se transfunde numa espécie de demiurgo antropofágico contra os Zé Cariocas da arte e os seus brocardos tupiniquins. Haroldo era um Oswald ajuizado; seu complemento. Quer algo mais pícaro? Mais rebelde? Ao invés de levar um chicote para a porta da Academia Brasileira de Letras (e tentar lascar um vergão mundano na bunda dos imortais), Haroldo levava sua língua ferina para os Estados Unidos, e ia pra dizer que aqui não tinha só macaco, onça pintada e samba. Ele carregava sua língua-chicote pra falar de Sousândrade em Chicago. E enquanto isso traduzia Homero, Ezra Pound, Maiakovski, Joyce, Mallarmé, Dante, Octavio Paz e mais uma patota da grossa. Como disse o To Zé, o Haroldo “um dia, guiava Dante Alighieri para o limbo da língua portuguesa; no outro, atacava o hebraico para roubar uma jóia da Bíblia." Não julgo o irmão Campos no todo biográfico, mas tão só nas partes que me tocam e que conheço um pouco mais. Na semana passada comprei e li seu livro “O Seqüestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O caso Gregório de Matos”, onde ataca a visão do monstro sagrado Antonio Candido, para o qual a Formação da Literatura Brasileira começa pra valer só a partir Arcadismo, desprezando o Gregório, desprezando o Pe. Antonio Vieira, desprezando, enfim, todo o XVI brasileiro. Haroldo diz que é justamente pela importância da obra de Candido que se faz “merecedora não de um culto reverencial, obnubilante, mas de discussão crítica que lhe responda às instigações mais provocativas”. Essa posição marca o estilo de Haroldo de Campos, um apaixonado - a seu modo - pelos desafios intelectuais que ajudaram a repensar nossa história e nossos cânones; resgatando, descobrindo e traduzindo autores que talvez não tivessem chegado até hoje às nossas livrarias, dada a vocação de puta e puramente comercial das nossas maiores casas editoriais, com algumas agradáveis exceções. Haroldo fez com Gregório de Matos o que os espanhóis da Geração de 28 fizeram com Luis de Góngora, talvez o maior dos injustiçados de todo o período barroco, mas brilhantemente recuperado e reinterpretado por Dámaso Alonso, Garcia Lorca, Gerardo Diego e toda essa turma monstruosa. Por aqui, estávamos todos abaixando a cabeça pro mestre Candido, como se o professor não fosse um professor, mas um xamã, enquanto o Boca do Inferno era mandado - no grito - pro limbo da nossa historiografia literária. Por isso, acho que a minha antipatia pelo Haroldo se foi, como também se foi aquela primeira empáfia da juventude, onde tudo se resumia ao gosto mais imediato e desinteressado. Depois que me interessei por Haroldo, compreendi que estar certo não é tão importante quanto esta arte dialética de criar tensões; saber provocar na hora certa e, na hora certa, reconhecer que estávamos errados. Por um Brasil menos saci e culturalmente asmático, é preciso buscar entender o que de tudo isso que temos lido e vivido é – concretamente – brasileiro.

Evoé!
Marcelo Reis de Mello.

Semanário de Virginia Rodrigues # 21








sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Um homem sem importância

Alberto Salvá
O Brasil perdeu ontem um dos seus melhores homens e um dos seus maiores cineastas. Alberto Salvá dedicou a vida ao cinema brasileiro, mesmo depois de tantos revezes que o deixaram pobre e amargurado na velhice. 

A cultura no Brasil leva um coice com a morte desse homem. Mas a cultura no Brasil  não é mais do que a carcaça de um touro morto perdido no mato, onde apenas as moscas conseguem botar seus ovos.

Lembro do Salvá como um senhor carinhoso e sensível, que me estendeu a mão num momento difícil da vida, quando me mudei pro Rio sem trabalho e sem rumo. Fiz seu curso de roteiro pra cinema na esperança de não enlouquecer dos excessos tropicais, mas ganhei muito mais do que sanidade; ganhei um amigo e um exemplo de homem. Acho que os homens sem importância desse país se reconhecem. Alguns se abraçam. Obrigado por aquele abraço, Salvá.

Antes de conhecê-lo já tinha visto seu filme "Um Homem sem Importância", uma peça belíssima e com traços autobiográficos, onde o protagonista vivido por Oduvaldo Viana Filho - o Vianinha - perambula pela cidade em busca de um trabalho e de uma razão qualquer para a vida. É um dos filmes mais incrivelmente sensíveis já feitos no Brasil; das coisas mais bonitas que já vi na vida. Sinto muito que nosso país não valorize a sensibilidade como valoriza o futebol. Sinto muito que tão pouca gente tenha conhecido esse gênio, num país de 200 milhões de ignorantes e alguns poucos loucos solitários meio nietzscheanos, meio quixotescos.

Espero que os colegas cineastas e os meios de comunicação prestem as devidas homenagens a esse homem sem importância, morto entre baratas kafkianas e seres do subterrâneo. Espero que o sol do Rio não corroa a sombra por onde os gênios como Salvá sempre estiveram caminhando, com suas patas e pastas debaixo do braço, seus sorrisos doídos, suas cáries, seus projetos frustrados pela incompetência dos gestores culturais que pululam nessa pátria de moscas e chacais.

Saravá, Salvá. Saravá.